|
O que é Plastimodelismo?
Considero o Plastimodelismo o mais
completo entre todos os hobbies, pelo menos no tocante ao
incremento cultural. Nenhuma outra atividade estimula o
conhecimento em tantas áreas do conhecimento humano.Na verdade,
o próprio termo é muito mais vasto que a usual definição de "kit
plástico para montar", pois envolve inúmeras outras facetas,
entre as quais a montagem de modelos sem o devido "kit", ou
seja, no qual o modelo é construído a partir de materiais
básicos (o chamado "scratchbuilt"), tal como ocorre no objeto de
verdade.
O principal mérito do Plastimodelismo, no entanto, é a
fidelidade de detalhes e o realismo dessas miniaturas,
características que compensam folgadamente o fato de serem, a
princípio, modelos estáticos (quantas e quantas vezes eu já ouvi
a expressão "Pôxa, mas não voa? Então qual é a graça?" e tive um
trabalhão para explicar isso).
Por esses motivos é que dificilmente encontramos um entusiasta
da aviação, um historiador ou até mesmo um fã de filmes de
ficção científica que não seja plastimodelista ou, pelo menos,
um admirador dessas miniaturas.
O Plastimodelismo, é claro, não se restringe às essas áreas,
abrangendo praticamente todos os segmentos da cultura humana,
sendo até difícil dizer qual o mais significativo.
Aqui em São José dos Campos (SP) há um grupo desses entusiastas
que se reúne mensalmente (IPMS São José dos Campos). A grande
maioria é composta pela turma dos aviões, mas o gosto do pessoal
é bem variado, indo de figuras medievais até naves tipo Star
Wars. Isso se repete em todos os lugares onde hajam grupos de
modelistas, em associações oficializadas ou não.
Há alguns anos (1997), montei uma loja especializada em
Plastimodelismo aqui na cidade, com o principal intuito de
servir como "quartel general" para minhas atividades ligadas à
Aviação. Isso originou um círculo de amizades muito maior do que
as três décadas que passei enfiado em aeroclubes e as quase duas
em que trabalhei na indústria bélica e aeroespacial, incluindo a
própria Embraer.
Isso dá uma idéia do poder do modelismo no que tange à atração
(e à seleção) do verdadeiro entusiasta.
Mas o que é Plastimodelismo,
afinal?
Oficialmente, Plastimodelismo é o hobby de construir e
colecionar miniaturas, também conhecidas como "kits de
construção", "modelo plástico em escala", "modelos de armar" e
até mesmo "kit educacional", dependendo da época e da localidade
(e, obviamente, da língua de cada país).
Aqui no Brasil, devido ao trabalho pioneiro da Revell, essa
marca foi sinônimo de "kits plásticos para montar" durante muito
tempo.
No final dos anos 50, Arno Kikoler, um industrial brasileiro da
então emergente indústria de plásticos, conheceu nos EUA um novo
tipo de hobby que estava em franco crescimento: Os tais kits
plásticos. Entusiasmado pelo potencial econômico e cultural da
atividade, conseguiu apoio da igualmente jovem Revell para
produzir esses kits sob licença no Brasil.
Em 1961 começaram a chegar às lojas os primeiros kits da Revell
brasileira, um Boeing 707, um B-24 e um B-47. Hoje, originais
desses kits são raros e alcançam um bom preço entre os
colecionadores (se você tem um não venda!). Rapidamente
seguiram-se outros, até a disponibilização de praticamente todos
os modelos do catálogo americano.
Aos modelos originários da matriz, somaram-se ainda os modelos
exclusivos brasileiros, como aviões e helicópteros da FAB,
navios da Marinha e aviões de companhias aéreas nacionais.
Devido a esse trabalho, ainda hoje encontramos quem desconheça
que a Revell é apenas um, entre os muitos fabricantes que
existem hoje no mundo.
(Nota: A Kikoler também fabricou alguns kits da marca Airfix,
Matchbox e Heller, com a marca KIKO. A empresa fechou há mais de
dez anos e hoje todos os kits de plastimodelismo são importados)
Como esses kits eram inicialmente fabricados em plástico, foi
criado o termo "plasti-modelismo" para diferenciar esta
modalidade das demais categorias de hobby-modelismo, como por
exemplo o Aeromodelismo (modelos voadores) e das miniaturas de
metal (die cast).
Na verdade, à exceção das referidas miniaturas em metal, que já
vem montadas (tipo Bburago e Maisto), hoje considera-se "Plastimodelismo"
praticamente todos os tipos de miniaturas estáticas que sejam
montadas/construídas pelo modelista, até porque existe
atualmente uma infinidade de acessórios para "incrementar" os
kits, feitos de outros materiais, como metal e resina sintética,
havendo casos de "plastimodelos" em que não é usada uma única
peça de plástico na sua construção.
Os objetos representados são os mais variados, indo desde
dinossauros até naves espaciais, mas os mais conhecidos (e
produzidos) são os modelos de aviões.
Existem também, como citei na Introdução, os modelos construídos
pelo próprio modelista à partir de materiais básicos como chapas
de plástico, metal, papelão ou até mesmo massa de modelar. Esses
modelos são conhecidos como "scratchbuilt". Nesse caso, não se
trata da simples montagem de um kit com peças pré-fabricadas,
mas literalmente "esculpir" um modelo peça por peça.
Mas o Plastimodelismo não se limita somente à montagem do kit.
Em pouco tempo o praticante vai dominando as técnicas básicas e
descobrindo todo o potencial da modalidade. Passa então a se
esmerar na montagem e no acabamento, adicionar aquele detalhe
que não vem no kit, alterar suas características originais para
fazer uma versão diferente ou até mesmo misturar as peças de
dois ou três kits para fazer um modelo totalmente novo.
Chegará, então, o momento em que o modelista sentirá a
necessidade de um novo tipo de informação. Por exemplo, para
detalhar o motor de determinado avião (em que ano começou a ser
usado o motor turboélice?), para fazer um diorama (cenário) do
Afrika Korps (posso usar aquele meu kit de tanque da Primeira
Guerra?) ou durante a montagem do Titanic (porque usavam
rebites? nessa época ainda não havia solda?). Surgirão dúvidas
cada vez mais complexas: Que bomba é essa do meu kit do "Enola
Gay"? (já era a bomba atômica?); de que cor devo pintar a espada
de um guerreiro celta? (nessa época já conheciam o aço, ou ainda
era de bronze?); meu kit da carruagem do Napoleão tem duas
lanternas (nessa época já havia luz elétrica?).
É aí que entra a característica
que considero mais importante nesse hobby: A didática.
Quase sem perceber, o modelista se
vê descobrindo fatos históricos, analisando princípios da
Física, aprendendo Mecânica e conhecendo Geografia. Enfim, um
aprimoramento cultural significativo, principalmente para os
jovens.
Além disso tudo, ainda temos o
aspecto terapêutico, proporcionado pela atividade manual. Há
tempos o modelismo é reconhecido como de grande valia na
fisioterapia de reabilitação psicomotora e na prevenção e
tratamento do stress.
Daí, é que fica até difícil dizer,
tecnicamente, qual dos aspectos desta atividade é o mais
importante. Mas uma coisa é certa. Pergunte isso a qualquer
modelista e ele irá responder: "Tecnicamente eu não sei, mas que
é gostoso, isso é!"
Dadas todas essas características,
o modelismo (não somente o plasti, mas todas as categorias) é
uma atividade muito difundida nos países desenvolvidos. Em nosso
país, infelizmente, esta ainda está restringida a uma elite
cultural.
Essa "elitização" não ocorre por
se tratar de um hobby caro, como dizem alguns, pois existem kits
de modelismo custando menos que uma entrada de cinema ou um
sanduíche BigMac (e ainda, muito mais baratos que um videogame
ou uma boneca Barbie). O que ocorre é que quando se fala em
modelismo a maioria das pessoas pensa logo em aeromodelos e
carros rádio-controlados, esses sim relativamente caros.
Na realidade, o problema é
essencialmente cultural, pois as pessoas de um modo geral vêem
no plastimodelismo apenas um brinquedo (até mesmo "inútil"), por
desconhecerem suas características.
Levei isso muito em conta quando
decidi abrir minha loja. Sempre critiquei a falta de cultura em
nosso país e o descaso das autoridades quanto a isso.
Comparem, por exemplo, a educação,
informação (mídia) e os valores sociais que tínhamos na década
de 70 com o que temos (argh!) agora. O que será das gerações
futuras com o atual sistema de ensino? Na minha época, desde o
ginásio já havia ensino semi-profissionalizante. Hoje, temos o
que poderíamos chamar de ensino "semi-analfabetizante". Basta
ver os resultados do ENEM e do "Provão". As comparações vão
ainda mais longe, mas não creio que seja este o momento e local
apropriado para discutir esses assuntos.
Desse modo, a loja (na verdade, o
Plastimodelismo) seria uma maneira de fazer a minha parte para
tentar mudar esta situação.
Certa vez, alguns modelistas
estavam reunidos em minha loja e, entre eles, um jovem com pouco
mais de dezesseis anos admirou a todos por seu interesse sobre
História da Segunda Guerra Mundial, táticas de combate, técnicas
de construção, engenharia, etc. Quando ele se retirou, um dos
modelistas veteranos, admirado, perguntou-me quem era o rapaz.
Respondi simplesmente que era um cliente da loja e que
freqüentava o meu curso de modelismo aos sábados. Aproveitando a
oportunidade, acrescentei: "Apenas mais um que trocou o
videogame por cultura!".
Ultimamente porém, a alta do dólar trouxe de volta o grande
vilão do modelismo no Brasil: A quase total dependência de
produtos importados e, consequentemente, as variações de preço
(geralmente para cima) frente ao câmbio. Em 1999/2000, a
desvalorização do real (que o governo jurou que não haveria)
pegou quase todo mundo de surpresa (exceto, talvez, os "amigos
do rei"). Muitas lojas acabaram fechando (inclusive a minha,
embora espero que temporariamente) e a coisa ficou mais difícil
ainda.
Entretanto, nem tudo é ruim. As dificuldades parecem ter unido
ainda mais os modelistas (ao menos os verdadeiros hobbistas) e,
ao contrário do que se poderia esperar, os clubes de modelismo
só tem aumentado em número (de clubes e de filiados) e as
convenções parecem estar cada vez mais concorridas.
Por outro lado, se o dólar joga contra os modelistas
brasileiros, o crescimento e a popularização da Internet tem
marcado gols de placa. Nunca foi tão fácil conseguir e difundir
informações como hoje (e, provavelmente, será ainda melhor no
futuro). A Internet também quebra o maior galho nas compras
on-line, seja nos sites internacionais ou nos daqui mesmo. A
facilidade de comprar sem sair de casa permite economizar tempo
e dinheiro, os quais podem ser investidos na montagem dos kits.
De uma forma ou de outra, qualquer que seja a situação, sempre
haverão entusiastas e modelistas fanáticos, seja pelas máquinas
que seus modelos representam, seja pelos próprios modelos. Como
será o Plastimodelismo daqui a 10, 50, 100 anos? Difícil dizer,
tal a evolução havida somente na última década. O que podemos
afirmar é que, devido à sua bagagem cultural, o Plastimodelismo
é - e possivelmente continuará a ser - um dos mais importantes
hobbies já criados.
© 2002 Lauro Ney Batista

|