PBY Catalina

Jorge Roberto Wolf

Meu nome é Jorge Roberto Wolf; tenho 46 anos, sou engenheiro mecânico com formação aeroespacial.. Mas, além disso, plastimodelista! Neste hobby, gosto de adicionar detalhes em meus modelos, técnica esta conhecida em inglês como ”scratchbuilding” (em tradução aproximada, construir a partir do zero).

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Sirvo-me de vários tipos de materiais para tal, sendo o mais usual o plástico poliestireno, em chapas, barras ou tiras, com dimensões padronizadas. Meu prazer especial, no entanto, consiste em desenvolver métodos novos neste processo de detalhamento, a fim de elaborar, construir e obter as peças desejadas, todas elas obedecendo às proporções das originais. Há um ditado que ouvi certa vez, dizendo que não existe algo difícil de ser feito em plastimodelismo; se assim estiver sendo, é porque o método errado foi escolhido. Estes dizeres norteiam minhas ações quando crio peças novas.

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Aqui estão fotos do meu mais recente trabalho, ainda em construção; trata-se de um PBY-5A Catalina na escala 1/48 da ProModeler. Comecei este modelo em março de 2003, e tive de deixá-lo de lado por quase dois anos devido a compromissos profissionais, além de longos períodos envolvido noutras atividades correlatas.

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Minha inspiração para montar o modelo neste padrão surgiu após um concurso no qual um colega ganhou merecidamente o primeiro prêmio com um modelo belissimamente montado e pintado (sua marca registrada, por sinal), porém detalhado exclusivamente com peças de resina adquiridas comercialmente. Deve-se notar que este gênero de trabalho requer igualmente muita habilidade, pois ajustar peças de resina nem sempre é tão simples assim. Ocorre que devido à contração natural das matrizes onde a resina é derramada, freqüentemente as peças moldadas são reproduzidas com um tamanho menor do que deveriam ser; assim, tal defeito requer muita habilidade para ser corrigido e compensado.

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Entretanto, aquela maquete, lembrou-me imediatamente dos tempos antigos do plastimodelismo, quando não existiam peças de resina e tudo tinha de ser feito à mão mesmo, usando o velho e bom plástico poliestireno. Naqueles tempos antigos, copos de iogurte e refrigerante, bem como as árvores (“sprues”) dos modelos, tinham todos outro destino – rechear nossas caixas de matéria prima para fazer peças novas! Além disso, naquela época, discutia-se nas rodas de modelistas novas técnicas desenvolvidas por cada um ou aprendidas de outros, com seus respectivos materiais envolvidos, enquanto nas de hoje ouvimos apenas quais as mais recentes novidades de sets de detalhamento foram lançados no mercado – assim percebi como tornamo-nos todos dependentes deste mercado!

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Assim, decidi elaborar um modelo com detalhamento obtido sem a utilização de nenhum item comercial, usando exclusivamente peças feitas à mão, com plástico em chapas, barras e tiras. Tratou-se de um desafio auto-imposto, e nas fotos que seguem, aparece o resultado que obtive. Ao final, minha única concessão aos itens comerciais reduziu-se às metralhadoras de resina da Paragon, bem como do painel de instrumentos dos pilotos da Eduard. Refletindo bem, achei que seria muita tolice refazê-los em plástico novamente. Por outro lado, os painéis do navegador e do engenheiro de vôo foram todos feitos à mão, seguindo o método tradicional.

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Devido à natureza do desafio, procurei por um modelo que de propósito não possuísse um número significativo de itens comerciais disponíveis, e caso os possuísse, estes não seriam de qualidade elevada. Assim, o PBY-5 da Revell / ProModeler encaixa-se perfeitamente nesta categoria.

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Preparo inicial

A primeira coisa a fazer num projeto desta envergadura é coletar informações detalhadas para servir como referência ao detalhamento. De posse deste material, passo então a desenhar esboços do conjunto a ser detalhado, a fim de estabelecer as proporções de cada item que será fabricado posteriormente.
Anos atrás, eu realizava estes esboços em papel, a lápis. A escala nestes casos era de 2:1 (até 5:1 para conjuntos muito intrincados) em relação ao modelo. Atualmente utilizo de um aplicativo Cad (AutoCad) para fazê-los; assim, posso introduzir uma foto em seu ambiente de trabalho (que havia sido digitalizada previamente), desenho diretamente sobre ela o contorno que me interessa, reduzo o esboço resultante para a escala desejada e imprimo-o, para usá-lo como guia na construção.

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Ferramentas utilizadas

Servi-me apenas de ferramentas usuais, tais como pinças, tesouras, estiletes para modelismo, lixas (em papel e barra), limas, colas líquidas, cola cianoacrilato, esquadros, régua, paquímetro, além de ferramentas rotativas Dremel. O único item incomum foi um estojo de punções (“Punch & Die set”), para cortar discos de variadas espessuras e diâmetros. Esta ferramenta é imprescindível para aqueles que fazem“scratchbuilding”.

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Matéria prima

Se outrora eu utilizava chapas de poliestireno oriundas de copos de refrigerante ou iogurte, ou de barras de “sprue” (arvores de injeção dos kits), hoje me sirvo apenas de chapas e perfis da Evergreen. A qualidadeé muito superior, as dimensões são todas padronizadas, permitindo ampla combinação entre elas ao construir; este material é há muito utilizado em ferreomodelismo ou em maquetes de arquitetura.

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Massa de preenchimento

Algumas técnicas podem diferir do lugar comum; uma delas é que na maioria das vezes uso cola cianoacrilato depositada em camadas (quando necessário) no lugar de massas de preenchimento usuais (Tamiya ou Green Putty). Desta forma, o acabamento é muito melhor; ela apenas deve ser lixada a partir de cerca de 10 minutos após ter sido aplicada, enquanto ainda está macia, caso contrário sua dureza será posteriormente muito elevada e seu retrabalho mais elaborado. Entretanto, as massas convencionais são também utilizadas em certos casos, quando a amplitude de movimento para lixar é pequena, para citar apenas um exemplo.

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Colas

Utilizo tricloroetieleno aplicado com um pequeno pincel (tamanho 00) para colar peças pequenas ou de espessura reduzida. Devido à sua alta volatilidade, ele não tende a dissolver ou deixar marcas nas peças coladas. Seu poder de adesão não é muito elevado, portanto ela fica reservada apenas para colar peças pequenas e delicadas. Em termos comparativos, pessoalmente considero a alternativa muito usada, o líquido polimerizante da marca “Jet” (de aplicação dentária) muito forte para estes casos, pois deixa marcas e provoca encolhimento de plástico de espessuras reduzidas.

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Discos e botões pequenos

O estojo de punções (“Punch & Die set”) é um dos itens mais importantes em plastimodelismo; é um tanto caro, mas vale cada centavo para quem quiser criar peças em “scratch”. Para abrir furos, entretanto, eu ainda prefiro utilizar brocas alargadoras, por permitir alinhar diversos furos porventura existentes em alguma peça, com maior facilidade.

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Cortando plástico

Modelistas tem me perguntado qual meu método para cortar plástico; sinceramente penso que faço como todos; com apenas alguns detalhes diferentes. Por exemplo, uso ao mesmo tempo quatro estiletes de modelismo. São todos idênticos, porém com tempo de uso diferente. O primeiro deles é somente usado para trabalho pesado; chamá-lo-ei de (# 4), tal qual raspar junta de peças injetadas. Para tal, é necessário que ele esteja quase cego, e a ponta de sua extremidade quebrada (isto ocorrerá em seu uso normal, por sinal).

A seguinte (# 3) é usada para cortar chapas plásticas, onde abrirá um sulco em três ou quatro passagens sucessivas, cortando-a gradativamente (cito o caso de uma chapa de 0,25 mm de espessura; outras mais espessas irão requerer um número maior de passagens). Esta é a lâmina mais utilizada, entre todas as outras, e é um pouco mais afiada que a # 4, e sua ponta também deve estar quebrada. Isto pode parecer brincadeira, mas é muito importante para permitir que as chapas sejam cortadas sem desvios. Todo o processo de corte de chapas é feito com o auxílio de uma régua.

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A # 2 é uma lâmina quase nova, e é utilizada quando o trabalho requer um fio afiado. A última, (# 1) é uma lâmina sempre virgem, usada apenas para cortar materiais macios, como filmes de decais (não a folha em si!). Tanto a # 2 e # 1 são perfeitamente pontiagudas.

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Os pedaços de chapa que comporão uma peça que confecciono jamais são cortados em suas dimensões finais antes de serem unidos. Isto somente é feito para a primeira chapa deste conjunto; nas demais, suas últimas dimensões (um comprimento, por exemplo) só serão definidas depois de unidos à precedente. Com este procedimento, pode-se sempre garantir encaixes ótimos para todas as partes que comporão o conjunto.

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Criando cavernas

A construção de cavernas em um modelo é sempre um aspecto delicado. Vários métodos existem; o meu preferido começa com desenhar a posição da caverna no interior da fuselagem para definir seu posicionamento. Em seguida, tiras estreitas de fita isolante (coloco-as em dupla camada) são instaladas paralelamente, ao longo da linha traçada, espaçadas na distância que será a espessura da futura caverna. Em seguida, posiciono sem colar pequenas chapas de plástico entre as tiras, cada uma acompanhando ligeiramente o contorno do interior na sua posição determinada. Estas são interligadas por outros pequenos pedaços de plástico formando uma espécie de corrente, como ilustra o desenho. Esta etapa é repetida para cada lado da fuselagem, pois elas são raramente
simétricas no seu interior. Quando cada contorno estiver bem rígido, eles são separados de cada metade da fuselagem e unidos entre si para que sua montagem seja posteriormente checada na fuselagem. Em seguida, sua imagem digitalizada é inserida num programa AutoCad. Desenho seus contornos, imprimo em papel, que é colado com cola branca numa chapa da espessura desejada da caverna. Finalmente esta é desbastada usando-se as linhas impressas como guia.

Detalhes externos

Vários detalhes do exterior foram modificados, a começar pelos capôs dos motores, pois os do kit estavam exageradamente pequenos. Foi acrescentado quase 2,5 mm no diâmetro, ou seja, praticamente 6 mm no perímetro! Além disso, as asas foram afinadas e cerca de 4 mm foram removidos nas extremidades, bem como nos flutuadores. Também estou modificando a cauda, pois esta estava excessivamente larga em mais de 10 mm no kit! Inicialmente eu havia adquirido a conversão da Belcher Bits para corrigi-la, entretanto sua superfície é tratada de forma diferente da do kit – ela não possui rebite algum, ao contrário do kit – apenas linhas de painel gravadas. Como o kit é literalmente cravejado de rebites, havia três escolhas: gravar rebites na peça corretiva de resina (uma tarefa um tanto aborrecida), preencher com massa todos os rebites do kit (uma tarefa muito aborrecida), ou conviver com isto (impossível para mim, ver o Frankstein resultante olhando para mim ao longo dos anos vindouros, na minha prateleira...). Então, ao final, não escolhi nenhuma delas! Não se tratou de decisão masoquista; a razão real era a de que eu tinha de economizar no peso adicionado na cauda, pois eu tinha muito poucos locais para adicionar contrapesos no nariz (pois quase todo ele havia sido ocupado com o detalhamento, e a cauda de resina é pesada). Além disso, com esta decisão eu manteria a característica de não acrescentar itens comerciais. Portanto, adicionei pedaços de chumbo sob os assentos, sob todos os assoalhos, e até mesmo dentro dos reservatórios de água ou da roda do nariz! Acredito que isto será o suficiente!

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Pintura

Todo o interior foi pintado com aerógrafo, utilizando tinta nitro celulose automotiva (Duco), pois elas são muito mais baratas do que quaisquer outras específicas para modelismo, e oferecem um acabamento muitíssimo superior. No interior, um agente fosqueante foi adicionado para se obter o aspecto que aparece nas fotos. Nas áreas externas, a tinta é aplicada sem este agente, de modo a obter um acabamento brilhante próprio para a aplicação de decais; em seguida uma camada de verniz acetinado ou semi-fosco é aplicada para selar e dar acabamento final ao modelo.

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A pintura com tinta Duco requer sempre a aplicação de uma base própria para permitir sua adesão ao plástico; elas jamais poderão ser aplicadas diretamente sobre o plástico nu. Quando esta base é tinta acrílica automotiva prateada, dispõe-se do modo ideal para simular uma superfície metálica pintada arranhada, que é o caso dos aviões militares desgastados. Após a camada final de pintura, basta arranhar com um estilete a tinta para simular os arranhões.

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Eu uso sempre tintas básicas (amarelo, vermelho, azul, seguido de branco e preto). Desta forma, misturo minhas cores no tom desejado, seguindo uma pesquisa preliminar para determinar a cor correta. O aspecto relativo à cor correta é sempre controvertido, todas as forças aéreas possuíam diretrizes norteando sua aplicação, porém nunca devemos nos esquecer que havia uma guerra em curso, e a utilização de cores corretas ficaria definitivamente em enésimo plano, em quaisquer dos lados do conflito... Assim, faço minhas escolhas de forma a indicar que houve uma pesquisa histórica, de forma que as cores não foram adotadas sem consideração alguma. Além disso, ao preparar minhas cores, posso atenuá-las para lhes conferir o efeito de escala, onde uma pequena porcentagem de branco é adicionada (para a escala 1/48, estima-se que se deve adicionar cerca de 10% de branco). Fica também mais fácil alterar as cores determinadas e fazer delas versões desgastadas ou queimadas segundo o envelhecimento desejado. Os detalhes menores foram todos pintados a pincel com tintas acrílicas a base de água da Testors, cujas quinas foram posteriormente realçadas pelo processo de “drybrushing” (utilização de um pincel quase seco para realçar determinados detalhes) usando-se tinta esmalte sintético da Humbrol. Esta última foi preparada sempre num tom bem mais claro do que o tom de base (isto é, da peça na qual estou trabalhando) a fim de obter o realce desejado. Assim, se a cor de base era preto, o “drybrushing” era realizado com cinza médio.

Fotografia

A câmera com a qual fiz as fotos é uma Canon Powershot A70, de 3.2 megapixels. A iluminação é proveniente de uma luminária comum com duas lâmpadas fluorescentes com 15 W cada. Em certos casos, quando eu precisava de uma contraluz, servi-me de uma folha de papelão branco ou isopor para fornecê-la.
A câmera sempre é montada sobre um tripé, e ajustada para abertura F8, sem luz de flash, com compensação de exposição igual a zero, no modo macro e velocidade ISO 50, sempre acionada com um retardo de dois ou dez segundos para evitar que a foto saia trêmula.